Crucial Simplicidade:

paisagens desnudase horizontes transformados

 

Exposição da artista Beatriz Abi-Acl no Espaço Cultural Vallourec reúne grandes telas em acrílica e aquarelas, que mostram a essência da destruição, a terra nua e descarnada, despida da pele vegetal.

 

Não é de agora que a obra da pintora Beatriz Abi-Acl sugere de forma às vezes explícita outras vezes com sutileza a violência contra a natureza, caracterizada pela devastação das matas, pela poluição dos rios e pelo extermínio das montanhas. Essa é a temática da exposição que fará no “Espaço Cultural Vallourec” (antiga Mannesmann), cuja abertura será no próximo dia 8 de agosto, no horário das 18 às 22 horas (Via do Minério, Portaria V, Barreiro). A mostra poderá ser visitada até o dia 26 de agosto deste ano.

 

Intitulada “Crucial Simplicidade”, a série reúne obras inéditas, de grandes dimensões, em acrílica sobre tela e aquarelas. Uma pintura direta e intensa, que mostra a maestria de quem não apenas domina, mas, sobretudo, de quem coloca a alma naquilo que tão bem sabe fazer.

 

Antes de iniciar a série, Beatriz Abi-Acl fez uma verdadeira peregrinação por Minas Gerais e, diante de uma nova paisagem construída pelo homem, ela fez marcações de planos em pequenos blocos de papel. No atelier, numa viagem mental pictórica e diante da tela em branco, ela recria/interpreta as imagens gravadas em sua memória. “Não faço esboço, nem desenhos prévios”, afirma a artista. Com tintas e pincéis em mãos, ela delineia essas iconografias com precisão, numa conjugação de técnica e beleza plástica.

 

Nas aquarelas, que aliam o aprimoramento advindo da cor utilizada na medida certa, o rigor do traço definitivo e único e a linha precisa, Beatriz Abi-Acl utiliza o mesmo processo. Nada de esboços ou desenhos. As imagens vão surgindo como um filme que se desenrola em sua mente.

 

Ao apresentar a exposição “Crucial Simplicidade”, Jacob Klintowitz, um dos mais respeitados críticos de artes plásticas do Brasil, escreveu: “Estas pinturas exigiram um cuidado extremo de composição. A essência da destruição, a terra nua e descarnada, despida da pele vegetal, tão despudorada na sua miséria exposta, não poderia se tornar em pintura pobre. É o que preside a organização do espaço: nele cabem o céu e as montanhas, restos de vegetação, o desenho dos planos escalonados. E, também, os contornos sinuosos das montanhas não perdem a sua sensualidade feminina e a terra em tons ocres não elimina a sua carnalidade”.

 

Klintowitz prossegue afirmando que, “de repente, a beleza na simplicidade extrema. A maestria antiga retorna no prazer de sugerir a implausível harmonia. Aqui o céu. Ali a luz espraiada do sol. Logo, o dorso da montanha e a linha irregular da vegetação. Nada dito, na verdade, mas sugerido, porque tudo é intuído. A denúncia é mais vibrante justamente porque a pintura se impõe e a dor é acentuada pela beleza do azul cerúleo do céu”, conclui o crítico gaúcho.

 

Essa beleza plástica, fruto de um lapidar que só o tempo permite a construção, reflete o atual momento de trabalho de Beatriz Abi-Acl e é prova inequívoca do esforço da artista à procura do aperfeiçoamento simples e delicado mas ao mesmo tempo intempestivo pela abundância de camadas de tinta, pelas cores e tonalidades arrojadas e pelo traço que se desvaira para o abstracionismo. Com delicadeza e maturidade artística, Beatriz Abi-Acl revela-nos uma nova Minas Gerais de encostas rasgadas, paisagens desnudas e horizontes transformados.

 

Sobre seu trabalho, a artista reflete: “Nunca deixei de buscar o espaço. Ainda procuro a beleza, uma das funções da arte, no pouco que o homem deixa restar. Minha pintura é textual e densa, como um rasgo de dor em cores. Simplifico o espaço que ainda tenho com as alterações que fazem nele. Pinto o tempo vigente, o que vejo com profundo sentimento de pesar, mas sempre no desafio de comunicar neste respirar contemporâneo que pulsa em todos nós”.

 

Ela lembra que sua infância foi entre as montanhas de Minas, num tempo em que a natureza na região ainda se mantinha preservada da degradação do homem. Nesse cenário, de beleza exuberante, gostava de pintar ao vivo aquilo que a natureza a oferecia gratuitamente e encantava seus olhos.

 

Com o passar do tempo, já morando em Belo Horizonte, foi tomada pela indignação da destruição do maior cartão postal de seu Estado: as montanhas. Os loteamentos desordenados, as erosões, entre outros fatores, que foram mudando a paisagem mineira, como a Serra do Curral, a Serra do Cipó, a Serra da Mantiqueira, só para citar alguns cenários, influenciaram sua arte e a incentivaram a usar a pintura e a aquarela como forma de denúncia. É esse processo que vem registrando pictoricamente, levando ao público, no Brasil e no exterior, através de exposições individuais e coletivas.

Crucial Simplicidade

 

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